terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Em nossas casas,poesias e canções


edição e revisão: Patrícia Chammas

Foto: Gabriel Tarragô







     O amor cantado como deve ser






Caros leitores que amanhecem rumo ao trabalho e levam nas mãos as informações deste periódico, é com prazer que informo que, a partir de hoje, estaremos sempre juntos com o que há de melhor em nossa música. Foram seis anos às quartas feiras, esperamos chegar a esse número também às terças.
                Como é gratificante acordar e poder ouvir uma boa melodia, recheada de poesia, que enalteça a vontade de viver! O convite hoje é para conhecer o primeiro álbum do cantor e compositor Waldir Vera, que nos presenteia com o belo Em Casa. O álbum foi concebido através do edital EMAM – Estúdio Municipal de Áudio e Música da Secretaria de Cultura de Mogi das Cruzes, SP, produzido pelo próprio artista e por Paulo Henrique, o PH, e nos contempla com dez faixas. Mogi das Cruzes é uma cidade que respira cultura e, nela, Waldir e seus amigos Paulo Henrique, Rabicho, Aline Chiaradia, Xê Casanova, entre outros, produzem música com respeito a quem vai ouvir na sala de suas casas.

                Waldir é dono de uma voz encorpada de sentimento, perfeita para cantar o amor, a paz e suas vertentes. A audição começa com Folha da Paixão (W.V.), em que a poesia de Vera é acompanhada por um arranjo feito “a seis mãos”. O violino, assim como o canto, dialogam com o piano, vibrafone, sanfona e a percussão marcante. Na sequência ouve-se a bela parceria com Henrique Adib, a poética O que Será, que nos imprime versos assim: “Quem sou eu pra você, nos seus olhos de céu/ Uma estrela cadente, ou um nascer de sol...”. Na terceira faixa, Waldir apresenta o parceiro Julio Bellodi, que escreve a letra/poema Água Marinha.

                Com um arranjo vocal que nos conduz pela poética apresentada, o cantor desfila versos para uma declaração livre, de amor, em O Coração na Voz (W.V.). “Guarde o sorriso melhor, prá mim/ Faz transparecer no olhar...”. Em casa é uma verdadeira declaração de amor à vida, uma produção rica em arranjos, harmonias, melodias e a palavra em forma de poesia, que a mídia deveria tomar conhecimento. Vera se declara ora por suas palavras, ora por seus parceiros poetas. A sonoridade deste disco nos remete a imagens, a aromas a sabores...

                A quinta faixa, Vem, mostra que o compositor de melodias rebuscadas também tem intimidade com as palavras que brotam de seu coração na hora de dizer “te amo”. Segunda parceria no disco com Henrique Adib, Canção pra Ver o Mundo, nos mostra que não há o que fazer sem o amor. “Daqui desse lugar/ O teu olhar me lembra o sol/ A iluminar meu coração”, diz o poema da canção O Sol do Teu Olhar (Waldir Vera/ Julio Bellodi). Waldir é esse cara que canta com emoção, compõe com o coração e não está na lista dos melhores CDs de 2017, sabe por quê? Sua música tem qualidade. Para encerrar essa audição rica em detalhes poéticos sonoros, ainda se ouve Verso, Rima ou Poema, Fonte da Canção e São José (Waldir Vera/ Henrique Adib). Para saber mais e comprar o CD, acesse: www.waldirvera.com.br

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Um açude de paixões


edição e revisão: Patrícia Chammas







     Túlio e as vertentes das paixões em poesia e canções.



                 A primeira matéria do ano é um mergulho no límpido açude de paixões do músico, compositor e cantor brasiliense, Túlio Borges, que acaba de lançar seu terceiro álbum, “Cutuca Meu Peito Incutucável”. Enviado pelo próprio artista, o CD me fisgou no primeiro acorde, proporcionando-me uma viagem que me levaria a uma enxurrada de boas lembranças impregnadas no meu imaginário. O cheiro da terra molhada, os banhos nas alvoradas, nos açudes do meu sertão. Ouvi inteiro, sem respirar, para não perder nem uma nuance, pois Túlio Borges nos convida a deitar sobre a poesia nordestina na qual suas raízes estão cravadas. Produzido e arranjado pelo artista, o disco tem oito faixas em que ele fala de coração, seus amores e todas as entrelinhas das paixões. Acompanhado de uma seleção de músicos que tem o saudoso percussionista maranhense Papete, Rafael dos Anjos, Victor Angeleas, Pedro Vasconcellos, Junior Ferreira, Oswaldo Amorim, Valério Xavier, Aldo Justo, Caloro e Sérgio Duboc. A capa e arte gráfica são assinadas pela artista plástica alemã Tina Berning.

                “Cutuca Meu Peito Incutucável” é o segundo álbum de uma trilogia que começou com o CD “Batente de Pau de Casarão”, de 2015. A ambientação sonora, instrumentação e a veia poética nordestina também ouve-se aqui.
                O disco abre e fecha com uma parceria riquíssima de sons e palavras entre Túlio e o poeta paraibano, o visceral Jessier Quirino. Na primeira, “Contracachimbo da Paz”, Túlio dá asas ao poema que recebera do amigo. Aqui ouviremos como tema, o amor que desfaz, que angustia, que machuca a alma; a voz solene vestida de uma sonoridade rica em detalhes percussivos. Na sequência temos uma parceria do artista com a cantora e compositora Ana Reis: “Concreto, Amor e Canção”, falando de desilusões. A cantora divide os vocais com Túlio, nos acariciando os tímpanos com esse bálsamo sonoro. Depois de vivenciar uma imagem de uma bela em praça pública, o poeta Túlio coloca no papel seus desejos aflorados. Com citação à música “Fogo e Paixão”, do saudoso Wando, a parceria com o compositor e cantor paraibano Afonso Gadelha “Ela Levantou os Braços e Eu Morri de Amores” é um xote/reggae que nos conduz para um açude de desejos a nos banhar de poesia. “Eita, quanto tempo o teu cheiro fica em minha boca/Parece que meu coração encontrou onde morar”, diz a letra do xote “Curvas” do poeta e cantor Zeto, que ganha de Túlio uma interpretação recheada de emoção.

                Com apresentação do poeta brasiliense Renato Fino no encarte do CD, que escreve sobre a paixão, fico com as frases a seguir: “E se paixão for veneno, bote uma dose aí/ A Paixão é humana/É Desumana/Feita de punhal e plumas/Dentes e unhas/É feita de pólvora a paixão/Não é coisa de gente/De pessoa, mulher ou homem...”  Ainda ouviremos “Grandes Olhos” (Aldo Justo/Alexandre Marino), “Cantiga” dos irmãos Clodo e Clésio Ferreira, “Vem Não” parceria com Climério Ferreira, e fecho esta rica audição com “Enxerida  no Contexto”, parceria com Jessier Quirino.
                    Que venha logo o terceiro dessa trilogia nordestina de poesia e canção. Um dos melhores que ouvi nos últimos anos!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Uma pintura sonora


edição e revisão: Patrícia Chammas







     A música sem fronteira que nos envolve.


Prestes a completar seus 50 anos de carreira vitoriosa, o compositor, violeiro e cantor, Renato Teixeira, não imaginaria que pudesse ganhar um presente dessa magnitude no auge dos seus 72 anos, que é ter parte de sua obra arranjada por grandes nomes como Ruriá Duprat, André Mehmari, Italo Peron, Vittor Santos, Paulo Aragão, Tiago Costa e interpretada pela Orquestra do Estado de Mato Grosso e a voz solene do próprio artista.

            O álbum “Renato Teixeira & Orquestra do Estado de Mato Grosso – Terra de Sonhos” chega com status de clássico e não pode faltar na CDteca dos amantes da boa música. São 14 faixas com a regência majestosa do visionário e talentosíssimo maestro Leandro Carvalho. O CD é mais uma produção e distribuição do selo, editora e gravadora Kuarup. Dezembro chegou e, com certeza, esse disco é um verdadeiro presente para quem comunga da beleza poética que a música pode nos contemplar. Com ele podemos viajar pelas imagens que o som vai produzir em cada um que se entregar a essa audição rica em detalhes. A voz de Renato emoldurada por cello, baixo, violões, violas de cocho, bruacas e ganzá, típicos da região do Pantanal Mato-grossense ecoa como o canto de um pássaro que sai do ninho em um voo rasante.

            Renato Teixeira está em um dos melhores momentos de sua carreira. Podemos contemplar sua presença nos palcos nos seguintes formatos: show solo, em duo com Sérgio Reis no show “Amizade Sincera” ou em trio com os amigos Sérgio Reis e Almir Sater no show “Tocando em Frente”. Agora podemos mergulhar nas nuances que o show com a Orquestra do Mato Grosso vai nos proporcionar.
            A OEMT abre as portas para os solistas e artistas brasileiros através do maestro Leandro Carvalho, que está sempre inovando. Em 13 temporadas realizou mais de 700 concertos em mais de 120 cidades em todas as regiões do País. Isso deve ser comemorado! Em release, Renato Teixeira cita a sensação que é ouvir sua música com esse capricho da orquestra: “A gente passa a vida toda fazendo aquele feijãozinho com arroz, né (risos), mas agora é diferente de tudo o que já fiz. Poder tocar com a Orquestra do Mato Grosso, com arranjos específicos e muito bem cuidados, que fujam dos formatos originais das canções, com interpretação eloquente do maestro Leandro Carvalho e de todos aqueles instrumentistas, me causa uma sensação muito boa, de renovação”.

            Com arranjo pulsante, evolvente, viajante de Ruriá Duprat, a música que dá título ao álbum, “Terra de Sonhos” (Renato Teixeira/Almir Sater), abre a audição do disco que convida a ouvir o simples da poesia e as notas que saltam de cada instrumento como um balé de pássaros nas copas das árvores. Mehmari, com seu arranjo minucioso, nos convoca a um passeio por “Tocando em Frente” (Renato Teixeira/Almir Sater). Não quero tirar de você, leitor, a surpresa desta audição que é rica em detalhes. Ainda nos resta descobrir as nuances poéticas e melodias de doze canções. Boa viagem ao belo! Renato e Leandro, simplesmente obrigado por tanta delicadeza

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A feminina voz para Gonzaguinha


edição e revisão: Marsel Botelho







     O bálsamo da voz nos banha a alma.



Quando o compositor e cantor carioca Gonzaguinha nos deixou há vinte e seis anos, a cantora Mirianês Zabot tinha apenas dez anos e vivia no interior gaúcho, na cidade de São João Bosco. A menina cresceu, desceu a serra gaúcha e desde então divide com todos o sonho que havia sonhado: cantar. De posse de um raro e inato talento, seu álbum de estreia, Mosaico Foto – Prosaico, de 2009, confirma a expertise não só de cantora, mas também seu dom de unir qualidade harmônica, melódica e poética em primorosas interpretações. Deu a si mesma uma missão digna de poucos: cantar Gonzaguinha. Onze temas foram escolhidos, incluindo uma faixa em parceria com o violonista e arranjador Oswaldo Bosbah (que assina os arranjos), presenteando-nos com o álbum Mirianês Zabot canta Gonzaguinha – Pegou o sonho e partiu.

Zabot, predestinada a levar o canto por todos os cantos que houver vida inteligente, mergulha na essência de sua feminilidade em Maravida: “Vida, vida, vida/Que seja do jeito que for/Mar, amar, amor/Se a dor quer o mar dessa dor, ah!” Mirianês faz jus ao privilégio de ter a presença e o aval de uma das maiores divas da voz, Claudette Soares, em dueto, na clássica De Volta ao Começo.

É do samba Com a perna no mundo a frase Pegou o sonho e partiu, que soa como um mantra para a cantora. O cello de Mário Manga em Sangrando é como bálsamo penetrante. Perguntei a Mirianês o que significa, hoje, cantar Gonzaguinha:     ─ Gonzaguinha é um artista que emociona, comove, que faz chorar. É intenso, visceral; ao mesmo tempo traz doçura e fé. Suas canções contêm mensagens edificantes. É importante que possamos ouvi-las sempre. Dedico meu trabalho como cantora à obra dele ─ disse-me.

 Em Desenredo (G.R.E.S. Unidos do Pau-Brasil), parceria com Ivan Lins, a gaúcha celebra cada acorde, tamanha a facilidade de interpretação, mesmo nos temas mais gonzaguianos (que o fizeram ser o ídolo que é). Os arranjos de Bosbah configuram a exata dimensão da força do canto e da voz de Zabot. Em Comportamento Geral, Mirianês faz cada sentimento valer a pena. Sua voz tem o brilho e a agudeza do cristal em Feliz. Espere por mim morena é a canção do disco que me deixa mais próximo desse fantástico artista Gonzaguinha. A mim me vêm imagens do filho do rei do baião cantando sua preciosa morena. Enquanto escrevo estas linhas, sinto como é difícil mergulhar nesse universo e não se emocionar.

Todo grande artista sabe o dom que tem de enternecer, de fazer sorrir e chorar, de não nos deixar esquecer o quanto somos frágeis, e isso seja, quiçá, o porquê de que tanto sonhamos por um lado; por outro, o mainstream dessa força interior que nos faz ser humanos, capazes de construir os mais belos sonhos, tanto quanto de demolir as mais perversas realidades, nisso Mirianês Zabot faz-nos acreditar em Um sonho nos lábios, Galope, Caminhos do Coração e na faixa bônus Vidas Idas.
O show Mirianês Zabot canta Gonzaguinha – Pegou o sonho e partiu está dentro do projeto Talento MPB, nesta quarta-feira, às 21 horas, no Bar Brahma, Av. São João/Ipiranga. São Paulo.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A Rica Música Brasileira

edição e revisão: Marsel Botelho







     Feliz dia dos músicos com música de qualidade






Muita gente me questiona a razão de escrever sobre artistas que a grande mídia não mostra. A resposta é simples: eles existem e estão aí para serem descobertos e vistos por todos, principalmente por um público muito especial, aquele que não se deixa doutrinar. Sempre foi assim, essa é a grande verdade. A cada dia novos e talentosos artista surgem, vindos dos lugares mais interioranos ou urbanos da sociedade. A música independente ganha força, de qualquer que seja a vertente. Apesar de a grande mídia entrar na casa das pessoas sem pedir licença, com a pretensão de decidir o que pode ser melhor para elas ouvirem, a margem de escolha que permite é pouca ou nenhuma. Mas o Brasil é uma país de dimensões continentais, sua diversidade musical vai do Oiapoque ao Chuí. Evidente que o público em geral espera e acredita que as forças que movem o projeto social humano sejam generosas e lhe ofereçam o melhor sem que seja preciso esforço algum por parte do ouvinte. Mas isso não é real. Não podemos perder o senso crítico, vital para o aperfeiçoamento de qualquer que seja a arte que se faça e para o do próprio ser humano, que é parte ativa nesse processo de construção civilizatório.

 A geração de artistas de hoje muito tem de semelhante com aquela linhagem de ouro da música brasileira, como Caetano, Gil, Chico, Milton, Bethânia, entre outros tantos que com certeza no início de suas carreiras também passaram por algo análogo, mas a força de sua arte inequivocamente os projetou. Existem, aqui em São Paulo, vários nichos onde são encontrados esses artistas em pleno exercício de seu ofício. A Vila Madalena é um desses polos de efervescência musical: quando você se vê lá no meio, parece estar em um mundo diferente dentro do próprio Brasil. Que música é essa? Onde posso ouvir? Atualmente uma rádio vem fazendo a diferença nesse cardápio tão rico a ser oferecido: a Rádio Brasil Atual FM, que foi indicada ao renomado prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), o programa concorrente é o Hora do Rango, com Oswaldo Luiz Colibri Vitta, pela diversidade musical apresentada na audição radiofônica. O blog que apresentamos, www.planetampb.blogspot.com.br, e esta coluna estão indo para o sétimo ano, veiculada diferencialmente em mídia impressa.   

Não nos cabe apontar o que não presta, porque na efemeridade se esvai, desaparece com a última luz, além do que seria um desserviço de sentido, todavia, em contraponto, podemos identificar o tripé que mantém a boa música no caminho do futuro: melodia, harmonia e letra (poesia, caso não instrumental), cuja textura sonoplástica atende aos requisitos que sempre nortearam a eterna arte. A pseudomúsica pode mesmo sempre insistir em vagar por aí nas encruzilhadas da vida. A beleza harmônica, melódica e poética faz com que nos encontremos quando estamos perdidos; apazigua nossos corações e instiga a mente à reflexão, enfim, faz-nos uma pessoa melhor. A boa música tem o poder de nos fazer amar uns aos outros.